Palavras do Du – Especial Halloween: A Estrada de Capivari

1 out

Oi, gente! Tudo bem?

Hoje começamos nosso Especial Halloween 2012, com direito à histórias de nosso colaborador especialista em contos de terror, o Du. Então até o final do mês teremos todas as segundas-feiras um post especial sobre o tema, ok? O de hoje é sobre a Estrada de Capivari. Preparem-se!

Imagem: Reprodução

“Capivari é uma cidade de aproximadamente 50 mil habitantes no Oeste Paulista, a 140 km da Capital.

Lembro-me da quietude das tardes nos finais de semana, do cheiro do cultivo de cana que se espalha por muitos de quilômetros em volta desta cidade, formando uma ilha de casas antigas que se contrastam com modernas arquiteturas, elevadas graças à modernidade trazida por algumas indústrias que ali se fixaram.

Entretanto, a paisagem conservadora toma conta do clima e a força da cultura do açúcar e álcool parece sufocar qualquer tentativa mais atrevida de crescimento. A igreja, a praça, e os casarões antigos ainda resistem frente à modernidade que tenta invadir.

As estradas de acesso são margeadas por enormes campos canaviais que parecem não ter fim, avançando além do horizonte. Entre elas, está aquela que liga Capivari a Santa Bárbara d`Oeste: Rodovia Comendador Américo Emílio Romi, onde o siêncio só é quebrado pelo trânsito dos treminhões que carregam a cana cortada para usina.

Os aproximadamente 30 quilIômetros de asfalto judiado por estas carretas e o canavial que acompanha o trajeto formam um clima desolado, capaz de trazer a mente mais lúcida criativos pensamentos e histórias. Nas noites, a única iluminação é a entrada da usina Bom Retiro, que está no meio do caminho entre as duas cidades.

Muitas pessoas que estudam em Santa Bárbara utilizam a estrada, retornando aos seus lares Capivarianos tarde da noite, quase na madrugada. Não faltam contos de espectros, discos voadores, bolas de fogo cortando a plantação, gemidos e barulhos de correntes relatados por aqueles que utilizam o caminho.

Certa noite, um estudante vinha retornando pela estrada por volta das onze e meia, com sua motocicleta. A noite estava agradável, o céu limpo e a lua cheia parecia domar a escuridão, refletindo a luz sobre o canavial onde eram formadas estranhas sombras.

O som do motor 250 cilindradas quebrava o assustador silêncio e a luz do farol raramente cruzava uma pessoa, um animal ou outro veículo. O rapaz avistou as luzes da entrada da usina e passou por elas em segundos, vencendo a curva fechada para a esquerda logo a frente e por fim recebendo o abraço sombrio da escuridão que o acompanharia até Capivari.

Mas desta vez algo o surpeendeu. A sua companheira metálica parecia engasgar e perder a força. A velociadade foi diminuindo até que parar foi inevitável. No acostamento esburacado, a luz do farol era como uma promessa de segurança.

Naquele momento, em meio a tentativa de fazer o motor funcionar novamente, ouvia-se apenas as folhas da cana dançando e esbarrando-se conforme a maestria do vento. Entretanto este som foi sobreposto por um terrível, porém longínquo uivo! Algo que chamou atenção do rapaz que parou por alguns segundos a tentativa de reviver sua máquina. Um uivo que causou arrepios, fez seu coração bater mais forte e repensar na urgência de sua tarefa. ‘Vamos… Ligue… Ligue …’ eram as palavras que ocupavam sua mente.

O rapaz percebeu atrás de si, pelo acostamento da estrada, que uma pessoa se aproximava. Conseguiu distinguir que era um homem apenas quando ele já estava bem perto. Ele usava um chapéu preto com uma cruz de São Cipriano bordada na lateral, calçava botas de peão, vestia calça jeans já bem gasta e amarrada por um cinto de couro com uma fivela bastante grande. Trajava camisa xadrez e um paletó preto surrado. Aparentava meia idade. Ao ver o rapaz, o homem não reduziu a velocidade dos passos, seguindo em ritmo acelerado. Quando chegou perto, fitou-o e exclamou: ‘Não é bom ficar parado  nesta estrada em noite de lua cheia… Que falta de sorte a sua’.  E não parou, afastando-se com um riso sinistro sem olhar para trás. Neste momento, novamente aquele uivo rasgou a noite, mas desta vez estava muito perto.

O homem começou a correr e alguns instantes depois um cachorro enorme surgiu do meio do canavial bem na frente da motocicleta. Assemelhava-se a um lobo, os olhos verdes pareciam humanos, e olhavam fixamente para o rapaz, rosnando com ferocidade, sem a menor intenção de esconder toda maldade enraizada em sua alma. O pobre estudante estava congelado de medo e na certeza de que a morte não lhe faltaria, rezava freneticamente na esperança que um anjo de Deus o protegesse.

Para sua surpresa, o animal partiu em direção ao homem que corria, alcançando-o com uma velocidade sobrenatural. O lobo cravou as presas em seu pescoço derrubando-o sobre o asfalto. Em seguida a besta arrastou o corpo para o canavial e desapareceu. Apenas o chapéu preto fora deixado no meio da pista!

Vruuummmm! O motor funcionara! Aquele ronco era música para os ouvidos. Ao montar na moto com uma pressa desesperada, seu estômago ficou vazio e gélido! Ouvira o uivo mais uma vez.

O rapaz acelerou o máximo que conseguiu e não olhou para trás. Passou pelo trevo da Rodovia do Açúcar sem nem reduzir a marcha e chegou pálido em Capivari. Ele não acreditava no que havia presenciado. Não sabia o que fazer! Não procurou a polícia! Não contou a ninguém!

Por dias, semanas, meses ele acompanhou os jornais para descobrir quem era aquele misterioso homem, o qual a besta havia destroçado. Porém não achou nenhuma nota de desaparecimento ou falecimento. Ninguém dera por falta dele.

Algum tempo mais tarde, ele estava na típica festa de São João em Capivari, que acontece todos os anos no mês de junho.

Nesta época, a fogueira é acesa na frente da igreja central e na madrugada do dia de São João, ela é desmanchada para que os devotos testem sua fé caminhando sobre as brasas.

Olhando a fogueira, o estudante estava concentrado em seus pensamentos e nem percebeu quando uma moça parou ao seu lado. Era um pouco mais alta que ele, não era linda, mas chamava muito a atenção.

Tinha a pele branca feito porcelana, calçava um par de botas que alcançava o joelho, vestia um vestido vermelho muito justo até o meio de suas magras e torneadas coxas. Um sobretudo aberto na frente a cobria até onde as botas terminavam, na cabeça um chapéu preto amassado que não combinava com a sua mórbida elegância. Seu cabelo era ruivo e seu rosto cheio de sardas. Os olhos verdes o encaravam friamente, combinados com uma terrível expressão de superioridade.

O rapaz pôde notar que o chapéu estava bordado com a cruz de São Cipriano na lateral, porém, antes que ele abrisse sua boca, ela se pronunciou:

– Falta de sorte? … Acho que não! … Até que você é muito sortudo, garoto.

Dito isto ela tirou o chapéu e o lançou na fogueira, virou-se e sumiu no meio da multidão, desaparecendo tão misteriosamente quanto tinha aparecido.”

2 Respostas para “Palavras do Du – Especial Halloween: A Estrada de Capivari”

  1. Eva 23/10/2012 às 23:22 #

    Muito boa! Criou suspense…meu coração acelerou!

    • Carla Jaróla 02/11/2012 às 16:07 #

      Sou fã das histórias dele, ele deveria escrever mais, não acha?

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