Palavras do Du – Especial Halloween: Estação Luz

8 out

Imagem: Reprodução

Era para ser apenas mais uma tarde de domingo na casa de uma amiga, ouvindo rock, jogando cartas, fazendo trabalho de escola, etc. Mas o relógio já denunciava ser tarde da noite, muito tarde para quem ainda iria utilizar o metrô de São Paulo para voltar para casa.

Fernando morava na Penha, perto da estação do metrô. Esse meio de transporte facilitava muito seu deslocamento, e como Ana Paula prometera encontrar-se com ele na estação da Luz, então não havia motivo para ir com sua motocicleta, seria poupado da chuva demorada que caía e até de preocupações com vandalismo e roubo.

Porém o relógio já marcava 23 horas. A ansiedade e o senso de urgência tomaram conta de Fernando, que todo atrapalhado, pedia a Ana que o levasse a estação Luz.

Tal pressa era justificada pelo dia seguinte. Fernando levantava muito cedo para trabalhar e precisava repor suas foças através do sono tranquilo das noites de domingo, onde costumava deitar para dormir antes das 21 horas.

Ana o deixou no mesmo local onde havia encontrado com ele horas mais cedo. Fernando pôde perceber a estação muito mais calma e tranquila do que nos dias comuns da semana, e não apenas isso, parecia haver um silêncio maior, afinal era domingo e já passara das 23 horas.

Descendo a escada rolante que dá acesso a plataforma, ouviu o sinal que informa o fechamento automático das portas. Na linha de destino Jabaquara, um trem acabara de sair.

As vivas almas que ali estavam, haviam embarcado no último trem e no momento não havia mais ninguém. Apenas Fernando fazia parte daquela paisagem de concreto e trilhos caminhando pela estreita plataforma central.

Ele se dirigia para ter acesso ao primeiro vagão, aproximadamente na terceira ou quarta porta. Nos dias de domingo o intervalo entre os trens é maior, portanto, não havia preocupação com o tempo. Caminhava lentamente de cabeça baixa, passando pelos pequenos becos formados no intervalo das colunas de concreto que nesta noite e naquele momento não protegiam nenhum casal e seus beijos, ou qualquer outra pessoa. Parecia estar só.

Mas após atingir a posicão pretendida na plataforma, virou-se e viu um casal caminhando na mesma direção que ele, entretanto parou um pouco antes. Mais para o fundo, podia ver uma jovem senhora. Todos aguardando o próximo metrô.

Era possível ver as luzes do farol do trem aproximando-se pelo túnel, quando de um dos becos, entre Fernando e o casal, saiu um jovem que vestia calça jeans, tênis e camiseta preta. Usava cabelo não muito comprido, solto e com as mãos no bolso, olhava na direção do trem que iria apontar em alguns segundos.

Fernando sentiu um pequeno calafrio. Não havia ninguém nestes espaços, como ele havia chegado lá sem a sua percepção?

O rapaz chegou bem perto da grade de proteção e sem tomar conhecimento de Fernando, deu-lhe as costas e começou a caminhar em direção ao casal, que namoravam encostados na grade, no meio do corredor e a vista de todos.

A moça e o rapaz estavam concentrados um no outro e não perceberam a presença do jovem caminhado em rota de colisão sem diminuir o passo, ao contrário, parecia acelerar.

O metrô já despontava no início da passarela e o jovem  começou a correr, iria bater no casal, talvez empurrá-los para a linha férrea, na frente do vagão, ou roubar a bolsa da moça. Ao observar aquela sequencia de fatos, Fernando ficava nervoso, pois o tempo era curto  e ele estava longe demais para tomar uma atitude. Entretanto, o que presenciou era perturbador. O jovem transpassou pelo casal, que nada sofreu ou sentiu, ignorando-lhes a existência. Continuaram abraçados como se nada tivesse ocorrido. O menino continuou correndo e pulou na frente do trem, onde desapareceu.

O trem parou, abriu as portas normalmente, na sua rotina comum. Fernando viu a jovem senhora entrar e logo depois, o casal. Paralisado, ele foi alarmado pelo sinal de fechamento das portas. Então, entrou correndo antes que elas fechassem.

Fernando contou esta história para muitos, voltou outras noites de domingo por vezes acompanhado de amigos, outras vezes sozinho, esperando a nova aparição do jovem suicida fantasma. Mas nunca mais conseguiu vê-lo.

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