Contos do Du – Maitê

1 abr

“Maitê era uma garota bonita. Apesar de viver brigando com o espelho, seu charme e personalidade atraía os olhares maliciosos dos homens que cruzavam seu caminho. Uma garota jovem com belos olhos castanhos e cabelos longos e negros.

Uma doce confusão em torno de si mesma confirmava seus vinte anos. Um pouco atrapalhada, vivia uma vida pacata, morando sozinha e sempre procurando novas sensações, buscando um pouco mais de maturidade, na esperança de aprender a lidar melhor com os relacionamentos.

Saiu para trabalhar naquela manhã de segunda-feira cinza, após tomar seu café amargo. Era pra ser mais um dia como outro qualquer. Ao chegar na sala onde atuava, notou que havia alguém diferente ocupando a mesa que estava vazia desde a demissão de um colega, há alguns meses atrás. Seria ele um novo funcionário?

Imagem: Reprodução

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Um homem bonito, inteligente, confiante e um tanto misterioso. Embora não aparentasse, descobriu no meio daquele bate-papo inicial de poucos minutos, que ele era alguns anos mais velho do que ela.  Sem entender o motivo, percebeu que havia algo nele que mexia com seus sentimentos, uma atração inesperada que confundia seus pensamentos e seu coração. Como poderia sentir-se atraída por uma pessoa que havia acabado de conhecer?

Poucas palavras trocadas e ele já se preparava para sair da sala. Sem explicações, disse um breve até logo, sorriu e saiu pelo corredor, minutos antes de suas colegas entrarem para início da rotina de trabalho. Certo que ele não trabalharia com ela, pois não tornou a vê-lo naquele dia e nem mesmo naquela semana. Em seu encanto inicial, Maitê não perguntou sobre suas funções na empresa, nem o seu nome.

Na quinta feira da semana seguinte, ainda não tinha informações sobre a misteriosa figura masculina, havia conversado com muitos de seus colegas, porém ninguém parecia conhecê-lo. Naquele dia, o excesso de tarefas obrigava a menina a permanecer além do horário habitual e quando todos haviam deixado a sala, uma nuvem escura cobriu o céu. A tempestade impedia a entrada da luz do sol pelas janelas e Maitê estava na companhia dos raios e trovões que despencavam no lado de fora. Ninguém ficara na empresa.

Aguardava ansiosa pelo final da chuva. A concentração em seu trabalho foi interrompida por barulhos que lembravam passos de crianças, correndo no corredor central. Maitê achou que era a chuva e sua imaginação, entretanto, levantou e foi até a porta da sala conferir. Estava muito escuro e nada pode ver, então acendeu as luzes e constatou que não havia ninguém. A chuva era sua única companheira. Sentou-se novamente e ao retomar o trabalho ouviu novos passos, desta vez, de um adulto se aproximando.

Assustada, ela olhou para a porta e viu que aquele homem estava ali, parado, olhando para ela, e logo após um estrondoso trovão, ele cordialmente a cumprimentou, pediu licença, entrou na sala e sentou-se na cadeira vazia, de frente para ela. Alegria, surpresa, dúvida e medo brigavam dentro da cabeça de Maitê e mesmo em meio a tantos sentimentos contraditórios, conversaram e puderam perceber quantas coisas tinham em comum. A menina, o achava incrível. Ele tinha algo de misterioso, o jeito como a olhava ou como falava com ela eram diferentes, como nunca outro homem havia feito. Tudo parecia muito agradável: sua companhia, o ambiente e as histórias que ele contava, ela sentia-se perdida no tempo.

Em determinado momento, o homem levantou, aproximou-se da menina e a puxou pelos braços para que ela saísse de sua cadeira e levantasse.  Abraçou-a forte e lhe beijou, desejou boa sorte e saiu pelo corredor.

Maitê sentou-se novamente em uma espécie de transe e só voltou a si quando o telefone tocou. Era o segurança da portaria avisando que passava das 21 horas. Não entendeu como o tempo passou tão rápido e só então notou que a chuva havia parado. Mais que depressa, pegou suas coisas e foi para casa.

Passados seis meses, ela não esperava mais vê-lo, havia desistido. Questionava a si mesma se a diferença de idade o afastou, ou os problemas cotidianos, ou ainda uma suposta falta de coragem em arriscar algo novo. Qualquer que fosse a razão, o homem havia desaparecido, como se tivesse renunciado a tantas coisas boas que ele poderia viver junto dela.

Em uma tarde, no final de uma reunião exaustiva, chegou a sua sala e suas colegas olhavam algumas fotos de festas antigas da empresa no computador. Repentinamente algo chamou sua atenção, o homem estava presente em uma das fotos. Maitê chamou atenção das colegas e explicou o que lhe acontecera. Então uma das colegas, a que tinha mais tempo de trabalho, começou a rir, exclamando ser impossível. Aquele era Boris, um ex-funcionário. Segundo ela, o último dia de trabalho dele foi o primeiro dia de Maitê. Ela se lembrava de quando ele passou pelo corredor e olhou Maitê sem que ela percebesse. Porém, ao partir sofreu um acidente fatal de carro onde havia morrido.

Maitê ficou chocada com a resposta inesperada de sua colega. Passou alguns dias tentando entender o que havia acontecido naquela noite, pensou até que estaria ficando louca. Mas tudo foi tão real, então desistiu de tentar descobrir o que de fato aconteceu.

No sábado pela manhã sentiu vontade de ir à capela que ficava próximo de sua casa rezar pela alma de Boris. Fechou os olhos e rezou. Sentiu uma brisa tocar seu rosto e abriu os olhos. Viu a imagem de Boris perto do altar sorrindo para ela e ela retribui piscando o olho direito. Fechou os olhos e continuou sua oração.

Ao sair olhou para o altar e não viu mais nada, sentiu uma paz interior como nunca havia sentido. Maitê pode entender que nem tudo precisa de uma explicação.”

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