Contos do Du: Pousada

31 out

Oi, gente! Tudo bem?

Hoje é halloween e nada mais justo que termos um conto de terror para a data, né? Ele foi escrito pelo Du, nosso colaborador aqui, especialmente para o Boyish ‘n Girly. Vamos lá?

A chuva não era violenta, mas perseverante, caindo junto com a noite. As luzes do farol revelavam a frequência das gotas que precipitavam do céu escuro, parecendo surgir na frente do carro na medida em que avançava.

Àquela altura, a pista molhada não permitia que o hodômetro marcasse mais do que 80 quilômetros por hora na BR116.

Por horas Marcio vinha dirigindo seu carro. Partiu de São Paulo incomodado, pensativo e não preocupou-se com a noite que iniciava, nem com as nuvens carregadas e densas que pareciam ser a materialização de seus sentimentos de ira, gerada por palavras que rasgaram seus ouvidos e torturavam sua mente em um eco infinito. A tormenta formada nos céus era tão confusa quanto seus pensamentos. Chuva, ventos, raios e trovões.

Marcio apenas queria pegar a estrada, na esperança de que o som daquela voz feminina desaparecesse. Ao manter a atenção na rodovia, a imagem dos olhos castanhos dela não encontrariam espaço para lhe torturar ainda mais.

Imagem: ultrad.com.br

Imagem: ultrad.com.br

Guiou na companhia do rock por muito tempo, mas o sono e o cansaço começavam a vencer, e ele precisava descansar. O digital do painel marcava mais de meia noite e ele acreditava que entre as  plantações de banana algum hotel, motel ou pousada haveria de existir. Não fazia questão de luxo, apenas um chuveiro quente e uma cama para relaxar e acordar na manhã seguinte em condições e coragem para tomar as decisões que deveria tomar.

Pôde ver a placa indicativa de uma pousada logo a frente. Era uma placa simples e de madeira que apontava para uma estradinha estreita, sem acostamento, de asfalto ruim que cortava o bananal. Mal passariam dois carros e parecia levar a lugar nenhum, mas segundo a indicação da placa, deveria haver alguma pousada no meio de toda aquela escuridão.

A visão prejudicada pela chuva ficara pior no breu que  o acompanhava e o silêncio tomara conta do ambiente, pois sinal algum, o rádio conseguia captar. Os pingos de chuva na lataria do carro eram agora sua sonora distração.

Márcio pensava estar perdido, começava a cochilar no volante e acreditar na hipótese de dormir ali, no meio daquela estradinha, quando os faróis do carro revelaram algo movendo-se bem no canto direito da estrada, prendendo sua atenção.

Estava longe e não era possível distinguir o que era. Reduziu a velocidade do carro e o sono parou de forçar seus olhos cansados. Era uma pessoa, em roupas brancas. Um vestido que parecia encharcado. Andava na mesma direção que o carro, a passos firmes, balançando o cabelo negro, liso, preso tipo “rabo de cavalo”, grande o suficiente para tocar a sua cintura.

Uma mulher, andando na chuva aquela hora da madrugada. Márcio ficou desconfiado e resolveu não parar. Ao aproximar o veículo, a mulher parecia não perceber os faróis que agora iluminavam seu caminho. Ele passou por ela, que continuou andando, indiferente, em frente, a passos firmes, como se conhecesse muito bem aquele local abandonado.

Uma leve satisfação tomou conta de si e ele soltou um pequeno sorriso, pensando vingativamente, sendo egoísta o bastante pra descontar nessa pobre alma encharcada e desconhecida a raiva que carregava do mundo naquele momento.

Porém, o arrependimento não demorou a incomodá-lo, não era certo. Parou o carro, voltou alguns metros em marcha ré, mas não a avistou mais. Talvez tivesse entrado em alguma trilha no bananal, talvez morasse por ali, talvez…

Continuou viagem, seguindo a estradinha escura, os pés de banana e as curvas fechadas. Minutos depois outra mulher apareceu, de vestido branco, a passos firmes no canto esquerdo da estrada, com o mesmo encharcado “rabo de cavalo negro”. Seu coração disparou e um tremor tomou conta de sua alma. Era a mesma figura sinistra que vira quilômetros atrás, porém desta vez, ela parou, virou-se e acompanhou os faróis do carro com seus estranhos olhos negros destacados no seu pálido, alongado e magro rosto.

Márcio acelerou, passou novamente por ela, mas desta vez não conseguiu soltar um sorriso, nem teve motivo para arrepender-se, ele estava apavorado! Como ela havia feito aquilo?

Na vontade de chegar logo na pousada, pensando em segurança, acelerava o carro. Na ansiedade e desespero, o veículo resistia aos buracos do asfalto mal remendado e as poças que espelhavam a luz do farol alto.

Após alguns minutos, ele não pôde acreditar no que via, a mulher estava no meio da estrada, encarando-o, forçando Márcio frear bruscamente e o os pneus deslizarem sobre o chão molhado. O atropelamento seria certo e inevitável, mas não percebeu nenhum barulho, ruído ou grito.

Márcio ficou travado, com as mãos no volante, olhando para chuva e a estrada escura e vazia através do para-brisa por alguns instantes, antes de sair, na esperança de oferecer socorro.

A noite estava cada vez mais insana. Seu rosto encharcado, suas roupas molhadas e uma mulher que agora não existia.

Correu de volta para dentro o carro, fechou a porta, e ao olhar pelo retrovisor central, percebeu uma sombra no banco traseiro do veículo. Apavorado Márcio não queria olhar para trás, pela silhueta podia identificar o rosto magro e o cabelo preso, o vestido branco se destacava.

Amedrontado, ele saiu do carro e correu pela estrada. Parou, olhou para trás, e não podia mais enxergar a mulher. Voltou devagar, cuidadoso, olhando fixamente para dentro do veículo, e pode perceber que não havia ninguém lá dentro.

Rapidamente, ligou o motor e acelerou, cochichando para si mesmo todas as rezas que ele lembrara.

Logo a frente, avistou a entrada da pousada, um casarão velho e bem iluminado. Estacionou de qualquer forma na frente da porta principal, pegou sua mochila e bateu na porta fortemente, insistindo para que alguém a abrisse!

Um homem com cara de sono abriu a porta e Márcio entrou correndo e dizendo: ‘Preciso de um quarto quente, confortável e seguro!’

O homem olhou desconfiado para Márcio. Calma e silenciosamente, fechou a porta, dirigiu-se para atrás do balcão a fim de preencher a papelada. Entregou-lhe a chave do quarto e fez um comentário: ‘Me desculpe comentar, mas o Sr. está com uma cara um pouco estranha, parece até que viu a mulher de branco por aí!’, seguido de uma escandalosa gargalhada!”

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