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Contos do Du: Pousada

31 out

Oi, gente! Tudo bem?

Hoje é halloween e nada mais justo que termos um conto de terror para a data, né? Ele foi escrito pelo Du, nosso colaborador aqui, especialmente para o Boyish ‘n Girly. Vamos lá?

A chuva não era violenta, mas perseverante, caindo junto com a noite. As luzes do farol revelavam a frequência das gotas que precipitavam do céu escuro, parecendo surgir na frente do carro na medida em que avançava.

Àquela altura, a pista molhada não permitia que o hodômetro marcasse mais do que 80 quilômetros por hora na BR116.

Por horas Marcio vinha dirigindo seu carro. Partiu de São Paulo incomodado, pensativo e não preocupou-se com a noite que iniciava, nem com as nuvens carregadas e densas que pareciam ser a materialização de seus sentimentos de ira, gerada por palavras que rasgaram seus ouvidos e torturavam sua mente em um eco infinito. A tormenta formada nos céus era tão confusa quanto seus pensamentos. Chuva, ventos, raios e trovões.

Marcio apenas queria pegar a estrada, na esperança de que o som daquela voz feminina desaparecesse. Ao manter a atenção na rodovia, a imagem dos olhos castanhos dela não encontrariam espaço para lhe torturar ainda mais.

Imagem: ultrad.com.br

Imagem: ultrad.com.br

Guiou na companhia do rock por muito tempo, mas o sono e o cansaço começavam a vencer, e ele precisava descansar. O digital do painel marcava mais de meia noite e ele acreditava que entre as  plantações de banana algum hotel, motel ou pousada haveria de existir. Não fazia questão de luxo, apenas um chuveiro quente e uma cama para relaxar e acordar na manhã seguinte em condições e coragem para tomar as decisões que deveria tomar.

Pôde ver a placa indicativa de uma pousada logo a frente. Era uma placa simples e de madeira que apontava para uma estradinha estreita, sem acostamento, de asfalto ruim que cortava o bananal. Mal passariam dois carros e parecia levar a lugar nenhum, mas segundo a indicação da placa, deveria haver alguma pousada no meio de toda aquela escuridão.

A visão prejudicada pela chuva ficara pior no breu que  o acompanhava e o silêncio tomara conta do ambiente, pois sinal algum, o rádio conseguia captar. Os pingos de chuva na lataria do carro eram agora sua sonora distração.

Márcio pensava estar perdido, começava a cochilar no volante e acreditar na hipótese de dormir ali, no meio daquela estradinha, quando os faróis do carro revelaram algo movendo-se bem no canto direito da estrada, prendendo sua atenção.

Estava longe e não era possível distinguir o que era. Reduziu a velocidade do carro e o sono parou de forçar seus olhos cansados. Era uma pessoa, em roupas brancas. Um vestido que parecia encharcado. Andava na mesma direção que o carro, a passos firmes, balançando o cabelo negro, liso, preso tipo “rabo de cavalo”, grande o suficiente para tocar a sua cintura.

Uma mulher, andando na chuva aquela hora da madrugada. Márcio ficou desconfiado e resolveu não parar. Ao aproximar o veículo, a mulher parecia não perceber os faróis que agora iluminavam seu caminho. Ele passou por ela, que continuou andando, indiferente, em frente, a passos firmes, como se conhecesse muito bem aquele local abandonado.

Uma leve satisfação tomou conta de si e ele soltou um pequeno sorriso, pensando vingativamente, sendo egoísta o bastante pra descontar nessa pobre alma encharcada e desconhecida a raiva que carregava do mundo naquele momento.

Porém, o arrependimento não demorou a incomodá-lo, não era certo. Parou o carro, voltou alguns metros em marcha ré, mas não a avistou mais. Talvez tivesse entrado em alguma trilha no bananal, talvez morasse por ali, talvez…

Continuou viagem, seguindo a estradinha escura, os pés de banana e as curvas fechadas. Minutos depois outra mulher apareceu, de vestido branco, a passos firmes no canto esquerdo da estrada, com o mesmo encharcado “rabo de cavalo negro”. Seu coração disparou e um tremor tomou conta de sua alma. Era a mesma figura sinistra que vira quilômetros atrás, porém desta vez, ela parou, virou-se e acompanhou os faróis do carro com seus estranhos olhos negros destacados no seu pálido, alongado e magro rosto.

Márcio acelerou, passou novamente por ela, mas desta vez não conseguiu soltar um sorriso, nem teve motivo para arrepender-se, ele estava apavorado! Como ela havia feito aquilo?

Na vontade de chegar logo na pousada, pensando em segurança, acelerava o carro. Na ansiedade e desespero, o veículo resistia aos buracos do asfalto mal remendado e as poças que espelhavam a luz do farol alto.

Após alguns minutos, ele não pôde acreditar no que via, a mulher estava no meio da estrada, encarando-o, forçando Márcio frear bruscamente e o os pneus deslizarem sobre o chão molhado. O atropelamento seria certo e inevitável, mas não percebeu nenhum barulho, ruído ou grito.

Márcio ficou travado, com as mãos no volante, olhando para chuva e a estrada escura e vazia através do para-brisa por alguns instantes, antes de sair, na esperança de oferecer socorro.

A noite estava cada vez mais insana. Seu rosto encharcado, suas roupas molhadas e uma mulher que agora não existia.

Correu de volta para dentro o carro, fechou a porta, e ao olhar pelo retrovisor central, percebeu uma sombra no banco traseiro do veículo. Apavorado Márcio não queria olhar para trás, pela silhueta podia identificar o rosto magro e o cabelo preso, o vestido branco se destacava.

Amedrontado, ele saiu do carro e correu pela estrada. Parou, olhou para trás, e não podia mais enxergar a mulher. Voltou devagar, cuidadoso, olhando fixamente para dentro do veículo, e pode perceber que não havia ninguém lá dentro.

Rapidamente, ligou o motor e acelerou, cochichando para si mesmo todas as rezas que ele lembrara.

Logo a frente, avistou a entrada da pousada, um casarão velho e bem iluminado. Estacionou de qualquer forma na frente da porta principal, pegou sua mochila e bateu na porta fortemente, insistindo para que alguém a abrisse!

Um homem com cara de sono abriu a porta e Márcio entrou correndo e dizendo: ‘Preciso de um quarto quente, confortável e seguro!’

O homem olhou desconfiado para Márcio. Calma e silenciosamente, fechou a porta, dirigiu-se para atrás do balcão a fim de preencher a papelada. Entregou-lhe a chave do quarto e fez um comentário: ‘Me desculpe comentar, mas o Sr. está com uma cara um pouco estranha, parece até que viu a mulher de branco por aí!’, seguido de uma escandalosa gargalhada!”

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Contos do Du – Maitê

1 abr

“Maitê era uma garota bonita. Apesar de viver brigando com o espelho, seu charme e personalidade atraía os olhares maliciosos dos homens que cruzavam seu caminho. Uma garota jovem com belos olhos castanhos e cabelos longos e negros.

Uma doce confusão em torno de si mesma confirmava seus vinte anos. Um pouco atrapalhada, vivia uma vida pacata, morando sozinha e sempre procurando novas sensações, buscando um pouco mais de maturidade, na esperança de aprender a lidar melhor com os relacionamentos.

Saiu para trabalhar naquela manhã de segunda-feira cinza, após tomar seu café amargo. Era pra ser mais um dia como outro qualquer. Ao chegar na sala onde atuava, notou que havia alguém diferente ocupando a mesa que estava vazia desde a demissão de um colega, há alguns meses atrás. Seria ele um novo funcionário?

Imagem: Reprodução

Imagem: Reprodução

Um homem bonito, inteligente, confiante e um tanto misterioso. Embora não aparentasse, descobriu no meio daquele bate-papo inicial de poucos minutos, que ele era alguns anos mais velho do que ela.  Sem entender o motivo, percebeu que havia algo nele que mexia com seus sentimentos, uma atração inesperada que confundia seus pensamentos e seu coração. Como poderia sentir-se atraída por uma pessoa que havia acabado de conhecer?

Poucas palavras trocadas e ele já se preparava para sair da sala. Sem explicações, disse um breve até logo, sorriu e saiu pelo corredor, minutos antes de suas colegas entrarem para início da rotina de trabalho. Certo que ele não trabalharia com ela, pois não tornou a vê-lo naquele dia e nem mesmo naquela semana. Em seu encanto inicial, Maitê não perguntou sobre suas funções na empresa, nem o seu nome.

Na quinta feira da semana seguinte, ainda não tinha informações sobre a misteriosa figura masculina, havia conversado com muitos de seus colegas, porém ninguém parecia conhecê-lo. Naquele dia, o excesso de tarefas obrigava a menina a permanecer além do horário habitual e quando todos haviam deixado a sala, uma nuvem escura cobriu o céu. A tempestade impedia a entrada da luz do sol pelas janelas e Maitê estava na companhia dos raios e trovões que despencavam no lado de fora. Ninguém ficara na empresa.

Aguardava ansiosa pelo final da chuva. A concentração em seu trabalho foi interrompida por barulhos que lembravam passos de crianças, correndo no corredor central. Maitê achou que era a chuva e sua imaginação, entretanto, levantou e foi até a porta da sala conferir. Estava muito escuro e nada pode ver, então acendeu as luzes e constatou que não havia ninguém. A chuva era sua única companheira. Sentou-se novamente e ao retomar o trabalho ouviu novos passos, desta vez, de um adulto se aproximando.

Assustada, ela olhou para a porta e viu que aquele homem estava ali, parado, olhando para ela, e logo após um estrondoso trovão, ele cordialmente a cumprimentou, pediu licença, entrou na sala e sentou-se na cadeira vazia, de frente para ela. Alegria, surpresa, dúvida e medo brigavam dentro da cabeça de Maitê e mesmo em meio a tantos sentimentos contraditórios, conversaram e puderam perceber quantas coisas tinham em comum. A menina, o achava incrível. Ele tinha algo de misterioso, o jeito como a olhava ou como falava com ela eram diferentes, como nunca outro homem havia feito. Tudo parecia muito agradável: sua companhia, o ambiente e as histórias que ele contava, ela sentia-se perdida no tempo.

Em determinado momento, o homem levantou, aproximou-se da menina e a puxou pelos braços para que ela saísse de sua cadeira e levantasse.  Abraçou-a forte e lhe beijou, desejou boa sorte e saiu pelo corredor.

Maitê sentou-se novamente em uma espécie de transe e só voltou a si quando o telefone tocou. Era o segurança da portaria avisando que passava das 21 horas. Não entendeu como o tempo passou tão rápido e só então notou que a chuva havia parado. Mais que depressa, pegou suas coisas e foi para casa.

Passados seis meses, ela não esperava mais vê-lo, havia desistido. Questionava a si mesma se a diferença de idade o afastou, ou os problemas cotidianos, ou ainda uma suposta falta de coragem em arriscar algo novo. Qualquer que fosse a razão, o homem havia desaparecido, como se tivesse renunciado a tantas coisas boas que ele poderia viver junto dela.

Em uma tarde, no final de uma reunião exaustiva, chegou a sua sala e suas colegas olhavam algumas fotos de festas antigas da empresa no computador. Repentinamente algo chamou sua atenção, o homem estava presente em uma das fotos. Maitê chamou atenção das colegas e explicou o que lhe acontecera. Então uma das colegas, a que tinha mais tempo de trabalho, começou a rir, exclamando ser impossível. Aquele era Boris, um ex-funcionário. Segundo ela, o último dia de trabalho dele foi o primeiro dia de Maitê. Ela se lembrava de quando ele passou pelo corredor e olhou Maitê sem que ela percebesse. Porém, ao partir sofreu um acidente fatal de carro onde havia morrido.

Maitê ficou chocada com a resposta inesperada de sua colega. Passou alguns dias tentando entender o que havia acontecido naquela noite, pensou até que estaria ficando louca. Mas tudo foi tão real, então desistiu de tentar descobrir o que de fato aconteceu.

No sábado pela manhã sentiu vontade de ir à capela que ficava próximo de sua casa rezar pela alma de Boris. Fechou os olhos e rezou. Sentiu uma brisa tocar seu rosto e abriu os olhos. Viu a imagem de Boris perto do altar sorrindo para ela e ela retribui piscando o olho direito. Fechou os olhos e continuou sua oração.

Ao sair olhou para o altar e não viu mais nada, sentiu uma paz interior como nunca havia sentido. Maitê pode entender que nem tudo precisa de uma explicação.”

Palavras do Du – Especial Halloween: Estação Luz

8 out

Imagem: Reprodução

Era para ser apenas mais uma tarde de domingo na casa de uma amiga, ouvindo rock, jogando cartas, fazendo trabalho de escola, etc. Mas o relógio já denunciava ser tarde da noite, muito tarde para quem ainda iria utilizar o metrô de São Paulo para voltar para casa.

Fernando morava na Penha, perto da estação do metrô. Esse meio de transporte facilitava muito seu deslocamento, e como Ana Paula prometera encontrar-se com ele na estação da Luz, então não havia motivo para ir com sua motocicleta, seria poupado da chuva demorada que caía e até de preocupações com vandalismo e roubo.

Porém o relógio já marcava 23 horas. A ansiedade e o senso de urgência tomaram conta de Fernando, que todo atrapalhado, pedia a Ana que o levasse a estação Luz.

Tal pressa era justificada pelo dia seguinte. Fernando levantava muito cedo para trabalhar e precisava repor suas foças através do sono tranquilo das noites de domingo, onde costumava deitar para dormir antes das 21 horas.

Ana o deixou no mesmo local onde havia encontrado com ele horas mais cedo. Fernando pôde perceber a estação muito mais calma e tranquila do que nos dias comuns da semana, e não apenas isso, parecia haver um silêncio maior, afinal era domingo e já passara das 23 horas.

Descendo a escada rolante que dá acesso a plataforma, ouviu o sinal que informa o fechamento automático das portas. Na linha de destino Jabaquara, um trem acabara de sair.

As vivas almas que ali estavam, haviam embarcado no último trem e no momento não havia mais ninguém. Apenas Fernando fazia parte daquela paisagem de concreto e trilhos caminhando pela estreita plataforma central.

Ele se dirigia para ter acesso ao primeiro vagão, aproximadamente na terceira ou quarta porta. Nos dias de domingo o intervalo entre os trens é maior, portanto, não havia preocupação com o tempo. Caminhava lentamente de cabeça baixa, passando pelos pequenos becos formados no intervalo das colunas de concreto que nesta noite e naquele momento não protegiam nenhum casal e seus beijos, ou qualquer outra pessoa. Parecia estar só.

Mas após atingir a posicão pretendida na plataforma, virou-se e viu um casal caminhando na mesma direção que ele, entretanto parou um pouco antes. Mais para o fundo, podia ver uma jovem senhora. Todos aguardando o próximo metrô.

Era possível ver as luzes do farol do trem aproximando-se pelo túnel, quando de um dos becos, entre Fernando e o casal, saiu um jovem que vestia calça jeans, tênis e camiseta preta. Usava cabelo não muito comprido, solto e com as mãos no bolso, olhava na direção do trem que iria apontar em alguns segundos.

Fernando sentiu um pequeno calafrio. Não havia ninguém nestes espaços, como ele havia chegado lá sem a sua percepção?

O rapaz chegou bem perto da grade de proteção e sem tomar conhecimento de Fernando, deu-lhe as costas e começou a caminhar em direção ao casal, que namoravam encostados na grade, no meio do corredor e a vista de todos.

A moça e o rapaz estavam concentrados um no outro e não perceberam a presença do jovem caminhado em rota de colisão sem diminuir o passo, ao contrário, parecia acelerar.

O metrô já despontava no início da passarela e o jovem  começou a correr, iria bater no casal, talvez empurrá-los para a linha férrea, na frente do vagão, ou roubar a bolsa da moça. Ao observar aquela sequencia de fatos, Fernando ficava nervoso, pois o tempo era curto  e ele estava longe demais para tomar uma atitude. Entretanto, o que presenciou era perturbador. O jovem transpassou pelo casal, que nada sofreu ou sentiu, ignorando-lhes a existência. Continuaram abraçados como se nada tivesse ocorrido. O menino continuou correndo e pulou na frente do trem, onde desapareceu.

O trem parou, abriu as portas normalmente, na sua rotina comum. Fernando viu a jovem senhora entrar e logo depois, o casal. Paralisado, ele foi alarmado pelo sinal de fechamento das portas. Então, entrou correndo antes que elas fechassem.

Fernando contou esta história para muitos, voltou outras noites de domingo por vezes acompanhado de amigos, outras vezes sozinho, esperando a nova aparição do jovem suicida fantasma. Mas nunca mais conseguiu vê-lo.

Palavras do Du – Especial Halloween: A Estrada de Capivari

1 out

Oi, gente! Tudo bem?

Hoje começamos nosso Especial Halloween 2012, com direito à histórias de nosso colaborador especialista em contos de terror, o Du. Então até o final do mês teremos todas as segundas-feiras um post especial sobre o tema, ok? O de hoje é sobre a Estrada de Capivari. Preparem-se!

Imagem: Reprodução

“Capivari é uma cidade de aproximadamente 50 mil habitantes no Oeste Paulista, a 140 km da Capital.

Lembro-me da quietude das tardes nos finais de semana, do cheiro do cultivo de cana que se espalha por muitos de quilômetros em volta desta cidade, formando uma ilha de casas antigas que se contrastam com modernas arquiteturas, elevadas graças à modernidade trazida por algumas indústrias que ali se fixaram.

Entretanto, a paisagem conservadora toma conta do clima e a força da cultura do açúcar e álcool parece sufocar qualquer tentativa mais atrevida de crescimento. A igreja, a praça, e os casarões antigos ainda resistem frente à modernidade que tenta invadir.

As estradas de acesso são margeadas por enormes campos canaviais que parecem não ter fim, avançando além do horizonte. Entre elas, está aquela que liga Capivari a Santa Bárbara d`Oeste: Rodovia Comendador Américo Emílio Romi, onde o siêncio só é quebrado pelo trânsito dos treminhões que carregam a cana cortada para usina.

Os aproximadamente 30 quilIômetros de asfalto judiado por estas carretas e o canavial que acompanha o trajeto formam um clima desolado, capaz de trazer a mente mais lúcida criativos pensamentos e histórias. Nas noites, a única iluminação é a entrada da usina Bom Retiro, que está no meio do caminho entre as duas cidades.

Muitas pessoas que estudam em Santa Bárbara utilizam a estrada, retornando aos seus lares Capivarianos tarde da noite, quase na madrugada. Não faltam contos de espectros, discos voadores, bolas de fogo cortando a plantação, gemidos e barulhos de correntes relatados por aqueles que utilizam o caminho.

Certa noite, um estudante vinha retornando pela estrada por volta das onze e meia, com sua motocicleta. A noite estava agradável, o céu limpo e a lua cheia parecia domar a escuridão, refletindo a luz sobre o canavial onde eram formadas estranhas sombras.

O som do motor 250 cilindradas quebrava o assustador silêncio e a luz do farol raramente cruzava uma pessoa, um animal ou outro veículo. O rapaz avistou as luzes da entrada da usina e passou por elas em segundos, vencendo a curva fechada para a esquerda logo a frente e por fim recebendo o abraço sombrio da escuridão que o acompanharia até Capivari.

Mas desta vez algo o surpeendeu. A sua companheira metálica parecia engasgar e perder a força. A velociadade foi diminuindo até que parar foi inevitável. No acostamento esburacado, a luz do farol era como uma promessa de segurança.

Naquele momento, em meio a tentativa de fazer o motor funcionar novamente, ouvia-se apenas as folhas da cana dançando e esbarrando-se conforme a maestria do vento. Entretanto este som foi sobreposto por um terrível, porém longínquo uivo! Algo que chamou atenção do rapaz que parou por alguns segundos a tentativa de reviver sua máquina. Um uivo que causou arrepios, fez seu coração bater mais forte e repensar na urgência de sua tarefa. ‘Vamos… Ligue… Ligue …’ eram as palavras que ocupavam sua mente.

O rapaz percebeu atrás de si, pelo acostamento da estrada, que uma pessoa se aproximava. Conseguiu distinguir que era um homem apenas quando ele já estava bem perto. Ele usava um chapéu preto com uma cruz de São Cipriano bordada na lateral, calçava botas de peão, vestia calça jeans já bem gasta e amarrada por um cinto de couro com uma fivela bastante grande. Trajava camisa xadrez e um paletó preto surrado. Aparentava meia idade. Ao ver o rapaz, o homem não reduziu a velocidade dos passos, seguindo em ritmo acelerado. Quando chegou perto, fitou-o e exclamou: ‘Não é bom ficar parado  nesta estrada em noite de lua cheia… Que falta de sorte a sua’.  E não parou, afastando-se com um riso sinistro sem olhar para trás. Neste momento, novamente aquele uivo rasgou a noite, mas desta vez estava muito perto.

O homem começou a correr e alguns instantes depois um cachorro enorme surgiu do meio do canavial bem na frente da motocicleta. Assemelhava-se a um lobo, os olhos verdes pareciam humanos, e olhavam fixamente para o rapaz, rosnando com ferocidade, sem a menor intenção de esconder toda maldade enraizada em sua alma. O pobre estudante estava congelado de medo e na certeza de que a morte não lhe faltaria, rezava freneticamente na esperança que um anjo de Deus o protegesse.

Para sua surpresa, o animal partiu em direção ao homem que corria, alcançando-o com uma velocidade sobrenatural. O lobo cravou as presas em seu pescoço derrubando-o sobre o asfalto. Em seguida a besta arrastou o corpo para o canavial e desapareceu. Apenas o chapéu preto fora deixado no meio da pista!

Vruuummmm! O motor funcionara! Aquele ronco era música para os ouvidos. Ao montar na moto com uma pressa desesperada, seu estômago ficou vazio e gélido! Ouvira o uivo mais uma vez.

O rapaz acelerou o máximo que conseguiu e não olhou para trás. Passou pelo trevo da Rodovia do Açúcar sem nem reduzir a marcha e chegou pálido em Capivari. Ele não acreditava no que havia presenciado. Não sabia o que fazer! Não procurou a polícia! Não contou a ninguém!

Por dias, semanas, meses ele acompanhou os jornais para descobrir quem era aquele misterioso homem, o qual a besta havia destroçado. Porém não achou nenhuma nota de desaparecimento ou falecimento. Ninguém dera por falta dele.

Algum tempo mais tarde, ele estava na típica festa de São João em Capivari, que acontece todos os anos no mês de junho.

Nesta época, a fogueira é acesa na frente da igreja central e na madrugada do dia de São João, ela é desmanchada para que os devotos testem sua fé caminhando sobre as brasas.

Olhando a fogueira, o estudante estava concentrado em seus pensamentos e nem percebeu quando uma moça parou ao seu lado. Era um pouco mais alta que ele, não era linda, mas chamava muito a atenção.

Tinha a pele branca feito porcelana, calçava um par de botas que alcançava o joelho, vestia um vestido vermelho muito justo até o meio de suas magras e torneadas coxas. Um sobretudo aberto na frente a cobria até onde as botas terminavam, na cabeça um chapéu preto amassado que não combinava com a sua mórbida elegância. Seu cabelo era ruivo e seu rosto cheio de sardas. Os olhos verdes o encaravam friamente, combinados com uma terrível expressão de superioridade.

O rapaz pôde notar que o chapéu estava bordado com a cruz de São Cipriano na lateral, porém, antes que ele abrisse sua boca, ela se pronunciou:

– Falta de sorte? … Acho que não! … Até que você é muito sortudo, garoto.

Dito isto ela tirou o chapéu e o lançou na fogueira, virou-se e sumiu no meio da multidão, desaparecendo tão misteriosamente quanto tinha aparecido.”

Palavras do Du: Olhos rubros

6 ago

Oi, gente! Voltei!

E não, isso nem é uma miragem: hoje temos DOIS posts no Boyish ‘n Girly (milagre!) e com post do colaborador sumido, o Du. Hoje ele traz mais uma história verídica, daquelas de arrepiar os cabelos. Se preparem!

Imagem: Reprodução

Aos 9 anos, Michele estava entre o cheiro de mato, o silêncio e um novo começo na casinha do interior. Após a separação de seus pais, esta combinação parecia perfeita.

O silêncio oferecia noites tranquilas de sono em um lugar onde o vizinho mais próximo encontrava-se a algumas centenas de metros da janela de seu quarto, após uma extensa área verde. Mas também revela os pequenos ruídos escondidos nas frestas daquela casa simples do campo.

Os barulhos, sombras e luzes que não são percebidos nas casas agitadas da capital, naquela casinha, pareciam fazer parte da construção, assim como os tijolos escondidos pela pintura e acabamento das paredes.

Pelas noites tranquilas, era comum uma rápida sombra atravessar o corredor central, que terminava no quarto de sua mãe, ou uma voz muito discreta sussurrando nomes enquanto Michele e sua irmã Clarice lavavam a louça do jantar. Em certo momento, estas atividades não incomodavam, eram como uma quebra da vagarosa rotina das noites no campo.

A lua cheia iluminava as plantações em uma noite onde nada acontecera e Michele admirava a fotografia de seu ídolo pendurada na parede, aguardando o sono tomar conta de seu corpo para um merecido descanso. Porém o homem na fotografia não parecia ser seu adorado ídolo, algo estava errado.

Michele perdeu o sono, aquela figura tomara conta de seu poster, e os olhos do novo homem começam a avermelhar.

Olhos vermelhos! Olhos vermelhos que saltavam do quadro junto com aquela estranha figura. Michele estava surpresa e paralisada. As sombras, as vozes e as luzes eram inofensivas, mas agora aquele acontecimento parecia desafiar sua sanidade.

Outros olhos vermelhos apareciam do nada, na escuridão do quarto, acompanhados por uma música vinda de um orgão supostamente tocado na varanda. Não era um som alegre e as figuras de olhos rubros não estavam felizes!

Michele gritava, porém sua irmã e sua mãe não saíam de seus sonos profundos. Então resolveu levantar para acordá-las e percebeu que estava presa, como se os olhos a mantivessem amarrada em sua cama.

Sem motivo, de repente ela se libertou e acordou Clarice, que vendo a irmã em desespero, imediatamente levantou-se e correu em direção da porta.

Para a surpresa das duas, a porta não abria, parecia trancada. Após alguns minutos  tentando, a porta abriu-se por si e as duas correram para o quarto de sua mãe.

Até os dias atuais, Michele não consegue esquecer ou explicar o que houve naquela noite. Não houve festa, culto ou reunião na vizinhança que pudesse explicar o som daquele orgão sinistro. E as figuras, nunca mais apareceram!”

Palavras do Du – Renato e o Pen-Drive

15 ago

Oi gente!

Sim, vocês não leram errado, nosso colaborador voltou! Depois de algumas bronquinhas, ele resolveu trazer mais uma história de suspense e terror. Estão preparados? Vamos lá:

“O Rock and Roll Indie e embriagado dos Strokes havia invadido aquele sonho. Isto só poderia indicar que mais uma segunda-feira de inverno estava prestes a começar, e Renato, em meio aos cobertores e endredons abrira os olhos para desligar o telefone celular que usava como despertador.

Madrugada fria, 5:30 da manhã e o som do vento invadia o apartamento vazio, contornando a mobília e tornando cada vez mais difícil a primeira tarefa daquele dia: sair da cama.

Renato seguiu como todas as segundas feiras: tomou banho, escovou os dentes, colocou uma roupa apropriada e seguiu para a cozinha a procura de um café quente para melhorar os ânimos.

De repente, lembrou-se de que deveria levar aquele pen-drive para o trabalho. “Onde coloquei?” confrontava a si mesmo. “Está na caixa amarela, sobre a estante de madeira”, lembrou.

Seguiu para sala de jantar, e avistou a caixa sobre a estante. Dirijiu-se a ela, uma caixa de papelão do sedex, onde ele guardara várias bugigangas, e entre elas, o pen-drive com seu trabalho.

Abriu a caixa e observou que haviam 2 pen-drives. Resolveu pegar os dois. Estes objetos pequenos cabem na palma da mão, e foi na esquerda que Renato os segurou, a fim de não deixá-los em um súbito esquecimento, afinal, ainda estava sonolento.

Imagem: Reprodução

Voltou para a cozinha e seu café, feito no microondas, repousava quente dentro de uma caneca. Com sua mão direita, pegou-a e seguiu a beber o líquido quente que confortava seu paladar e esquentava seus ossos.

Foi então que abriu a mão esquerda e notou que havia apenas um pen-drive em sua palma. Repreendeu a si mesmo: “ora, que cabeçudo, larguei em algum lugar e nem percebi!”.

Colocou a caneca já vazia sobre a bancada e deu uma boa olhada em toda cozinha. Nada encontrou.

Partiu para a sala jantar, procurou sobre a mesa redonda de madeira escura, sem sucesso.

Voltou a abrir a caixa Sedex, esvaziando-a sobre a mesa, e … nada.

“Ora ora, onde deixei?”

Renato sentiu a manhã escura e muito fria. A chuva que caia desde a madrugada tornara-se uma garoa e o vento cortava as janelas de alumínio, atravessando suas frestas e assobiando. A porta do quarto bate!

Um arrepio percorre seu braço e fica uma sensação de que tem alguém atrás porta, porém não se deixa abater e decide olhar todos os cômodos do pequeno apartamento. Banheiro… nada. Quartos…. nada. Sala de estar …. nada.

Um silêncio fora do comum envolve aquele espaço e apenas a luz da sala de jantar estava acesa. Renato ouve apenas seu coração batendo mais forte, então,  afasta uma cadeira e senta-se. Apóia os cotovelos na mesa e resolve rezar para recuperar a coragem. Terminada a oração, ele levanta a cabeça e inexplicavelmente a luz começa a piscar em um rítimo aleatório e assustador.

Ela permaneceu piscando por uns 2 ou 3 minutos, mas o garoto não teve dúvidas, pegou sua pasta, desligou o interruptor e saiu tão rápido quanto pode pela porta da sala!!!

Entretanto, o mais perturbador era saber que após sua jornada de trabalho, teria que voltar ao seu apartamento!

Dicas do Du: o Casarão de Campinas

23 out

Olá pessoal, tudo bem?

Hoje teremos um post especial de nosso novo colaborador. O Du é o mais novo membro da nossa equipe! E para mostrar que ele veio com o espírito de halloween, nos trouxe uma história de terror. Todos conhecemos alguma lenda ou escutamos alguém falar de algo incomum, mas e quando é conosco ou com alguém próximo?

Para saber o que ele escreveu (e é verídico), apague as luzes, acenda suas lanternas, pegue sua pipoca e vamos lá!

“Paulo estava morando em um casarão no centro de Campinas, era antigo, mas era apenas pelo período do curso de Eletrônica.

Aluguel barato e local estratégico.

Na frente do casarão, a rua de paralelepípedos era bem estreita, podia passar um carro de cada vez. A porta, era grande e logo ao passá-la uma escada ainda de madeira ficava espremida entre as paredes, formando um corredor estreito que levava ao segundo andar da antiga construção.

Na parte superior, havia um corredor que ligava a lavanderia na parte de trás da casa ao banheiro na parte da frente. Entre eles a cozinha, que ficava ao lado da lavanderia e 2 quartos. Um deles tinha a janela para rua, de onde via-se as pessoas passarem na calçada logo abaixo. O forro era todo de madeira e os lustres amarelados pelo tempo.

Uma noite, Paulo vinha voltando do curso para o descanso, como fazia todos os dias. Ao percorrer a rua estreita percebeu um silêncio diferente de outras noites, a lua cheia iluminava o paralelepípedo e os carros haviam parado de passar.

Paulo abriu a grande porta, que fez seu rangido habitual, subiu as escadas e acendeu a luz do corredor. Olhou para a esquerda e viu a porta do banheiro fechada. Ao entrar na cozinha, percebeu que seu colega de quarto havia deixado a louça suja. Alexandre voltou para São Paulo naquela tarde e provavelmente saiu atrasado, pois largou a cozinha imunda.

Dirigindo-se ao quarto, passou primeiro pela porta do quarto do colega, que estava aberta, e sentiu um pequeno calafrio na espinha. Neste momento, lembrou-se de uma noite na semana anterior quando uma mão havia tocado seu pescoço enquanto dormia e o fez acordar. Ao levantar não viu ninguém e ao verificar o quarto ao lado, Alexandre estava dormindo. “Estive sonhando”, pensou.

Trocou de roupa em seu quarto e foi limpar a cozinha. A noite caía, no céu a lua cheia parecia abraçada por algumas nuvens e a rua, cada vez mais calada.

Demorou um tempo até que a cozinha ficasse mais limpa. Quando começou a lavar a louça, o relógio já denunciava que faltava 1 hora para meia noite.

De repente, um barulho forte….. uma porta havia batido! Paulo assustou-se e verificou que as portas não haviam mudado de posição. Porém, atravessou o corredor e fechou a porta dos dois quartos, chegando ao banheiro, abriu a porta e fez uso dele, deixando a porta aberta ao sair.

Ao voltar  para cozinha, voltou a esfregar a esponja com detergente nos pratos. Outro estralo! Mais uma batida de porta, violenta! Então, Paulo percorreu os olhos atravessando o corredor até a porta do banheiro. Para sua surpresa, ela continuava aberta, e a dos quartos… fechadas!

Paulo sentiu novamente aquele calafrio, o silêncio aumentara. Em uma tentativa de espantar o medo que começava a domar suas pernas, andou apressado em direção ao banheiro e fechou a porta. Virou-se, encarou o corredor em direção da cozinha e com a respiração profunda lentamente dirigia seus passos de volta.

Quando chegou na porta da cozinha, um frio gelado tomou conta de seu estômago, suas pernas começaram a tremer e aterrorizado percebeu que toda a louça que estava dentro da pia, encontrava-se espalhada por toda cozinha.”

Quer saber mais? Sábado que vem o Du volta. Enquanto isso, deixe seus comentários!